numerozero


29.8.08
:::: canoagem //// :::

o parabrisa do carro rachou de uma ponta a outra sem razão aparente. deu para ouvir o estalo. estávamos descendo por uma estrata de terra depois de meio dia de bebedeira e mergulhos na água gelada do rio. antes de trincar, o motor do carro começou a zunir mais alto. a euforia tomou conta dos quatro passageiros e do motorista. as risadas foram alta mas de forma alguma abafaram o barulho do rádio. o fiat serpenteou pra direita pra esquerda. mais uma vez. vi a quarta marcha ser engatada. o carro, que devia cair pra direita na ribanceira titubeou. não lembro se teve um pé no freio, sei que o veículo parou. numa vala. amassado na lateral. um grande estrago na porta do condutor e no paralama dianteiro. ninguém ferido. nenhum motivo para o parabrisa ter rachado.

28.8.08
o tempo é um fantasma feroz. persegue meus passos, corre atrás da minha sombra, cola em meus pés. estou faz dois dias sentado na varanda dessa casa. vejo o movimento do bar e ouço o barulho da água. o som das luzes dos carros. vi, ontem, a lua se levantar sobre o morro desmatado. contemplei o andar cíclico sobre uma cadeira plástica azul que se dobra quando o corpo força para traz. os olhos vidrados e cristalinos. animais rastejando para dentro de seus cascos e caracoisas saindo sem dar explicação. estava sozinho e continuo.

era pra ser um domingo de nuvens. nós andamos alguns quilometros até a margem e sentamos sobre o tronco de uma árvore caída. papéis e palhas e palitos de fluor. virávamos a cabeça para acompanhar o movimento. alguns dias antes daquele domingo, uma roçadeira havia passado por sobre a relva. talvez estivéssemos, dois, embrenhados em outra viagem. sobre uma pedra com vista para a autoestrada, quem sabe. mas agora trocamos silêncio. duas pálavras e o ruído dos peixes em um entardecer de domingo.

da outra margem vem a radiação amiga de um televisor. as papolas dilatam e enxergamos bem mais do que queríamos ver. digo "nós", mas percebo a distração do resto dos animais. o pensamento não está naquele instante. não está em lugar nenhum no meio daquela fumaça. passam-se 20 minutos na troca dos apertos de mão. o satélite vai alto no céu. estou imóvel e contínuo.

22.8.08
ódio contra a máquina. pede pra mandar e-mail com a pauta. enrola. não marca a entrevista. avisa na última hora. um representante de toda brasilidade podreira.


20.8.08
retorno à fixação por fios elétricos. em todo o posto há algum pendurado. penso que, saindo de casa, qualquer hora dessas posso esbarrar as têmporas em um. de pés descalço. o chão meio molhado. o breve tempo de insanidade. pzzzzzzzzzzzz. seria um eletrochoque. os fios desencapados, descendo dos postes, as vezes dizem: a cidade é um hospício.

19.8.08
o ranço rebelde

quero fotos dos 90!
pulando sobre as moitas
nas noites geladas

quero sabor dos 00!
delícias nas árvores
amadurecem caladas

quero toques de ontem!
passos inseguros e
fios de cobre

quero querer de agora!
tudo destruído limpo
como vãos de escada

da série: recorte e cole no tradutor do google. traduza pro inglês e cole de novo. traduza pro russo e cole de novo. traduza pro alemão e cole de novo. faça o caminho de volta para ver onde isso nos leva.


////////// porque não /////////////////

gastei metade da minha conversa falando sozinho. ando craque nisso. poderia enfiar as orelhas dentro dos fones de um walkman ou apenas furar os tímpanos com agulhas de tricô. eis que então, ele disse:
- das duas uma.
e ele respondeu:
- três, por favor.
e ele, então, replicou:
- pagamento a vista.
e assim a conversa seguiu. molhada como uma nuvem. áspera como uma lixa. precisa como uma gillette.




18.8.08
::::::::::: a sombra veloz ///////////

acelero para esconder-me do sol atrás de um caminhão de sucata. os carros cortam minha frente. batem na traseira uns dos outros. aumento o volume para abafar os gritos. limpo os olhos para espantar a fumaça. na ponte errada, dobro a esquerda. deixo o veículo de carroceria imensa partir. a luz retorna. ofusca minha visão. o som embaralha meus sentidos. a lataria bate na mureta. a borracha gruda no cimento que racha. cruzo o muro baixo de proteção e por alguns instantes fico suspenso no vazio. o ar é mais denso que o metal naqueles pequenos instantes. quando o carro bate na água, destroços da lateral da ponte caem - ora no capô ora na água espessa do rio. estou atordoado e solto. grudo livre no fundo de lama e vejo sofás boiarem corredeira abaixo.

1.8.08
agonia. aperto. coração. sangue.
fechado. espera. ferro. avenida.
baratas. mosquitos. cachorros. pombos.
carros. ônibus. carroças. aviões.
telefone. computador. gravador. informação.

porta-retrato. guarda-chuva. nariz-de-cera. caixas de som.

responsabilidade. defeito. virtude. correção.
brinquedos. ouvidos. alma. seca.
trabalho. filhos. escola. casa.
luz. água. condomínio. gasolina.
álbuns. livros. jornais. televisão.

meia-verdade. veia-intupida. velha-ranzinza. telha-de-zinco.