numerozero


18.2.05
o silêncio se aproxima. não traz consigo desespero.
(CARRUTERS, Algernon. Capas, Capas, Capas. 1.ed., OZ´:Acre, 2004. p. 61)

ps.: compro esses livros ó:

- tradução e melancolia;
- a queda do anjo;
(pago no máximo 20 paus em cada um)



essa caiu na minha caixa de entrada:
felipe, declare sua paixão por carros
ok. justo pra mim?
Eu, eu-odeio-carros.
carros matam, disse thomyorke.
carros transformam pessoas em animais, eu digo.
já vi isso 3 vezes, mas poderiam ter sido 100 (ou mais) vezes.



aquela noite voltei pra casa a pé. durante a andada fiquei pensando no que ela havia dito sobre peixes ou framboesas. algo a ver com o perfume da rua ou as nuvens sem chuva.
(CARRUTERS, Algernon. Capas, Capas, Capas. 1.ed., OZ´:Acre, 2004. p. 33)

12.2.05
aquele que botou a cabeça raspada janela a_dentro deve ser o deus. teu deus pelo olhar e pelo comentário das beatas da próxima fila. acontece que o que ele disse me deixou meio intrigado. de seu olhar remelento saiu algo do tipo "tenha disciplina seu filhadaputa". então tá, senhor. prometo que a_partir de agora, começo a levar a vida mais a sério & não mais farei piada sobre a estranha condição do bicho de pé que diariamente põe a cabeça para fora da minha pele e reclama que "a comida não tá lá essas coisas". o sonho

ficou três meses ou quase isso sem cumprir promessa porra nenhuma.

"que seja", ela disse antes de se despedir. assim se fez. e também não se pre/ocupou em olhar pra trás quando me mandou pro inferno enquanto ia embora. e não adiantou um "mas" ou um "euteamo" nem nenhuma dessas coisas que se diz quando se está desesperado ou prestes a dizer "olá" pra solidão.
o "que seja" dela ficou reverberando na sua cabeça. até que teve a feliz idéia de ouvir as mensagens oníricas e seguir a risca suas ordens.
comprou inseticida. misturou com água quente num balde e enfiou o pé la dentro. "pronto" pensou "o bicho de pé já era". sentiu uma dor, mas achou que era da perda ou das palavras dela que ainda machucavam. o próximo passo foi ir a uma papelaria e comprar um bloquinho e uma caneta. todo dia, no bloquinho escrevia uma palavra. e assim foi até o final da vida (pouco tempo depois) escrevendo palavrões nas convidativas folhas em branco. assim, seu destino não fio outro senão o paraíso.

11.2.05
sempre aperto numa tecla e o computador cai em stand by. sempre aperto no insert e o espaço come as minhas letras ou as letras comem umas as outras. tenho um bilhão de novidades. estrelas supernovas. relatos de viagens que se eu fosse rimbaud faria, mas um modo diferente. são outros os bilhões de novas fotos. há pensamentos também. mas o insert está apertado e, como disse, as letras comem umas as outras letras. assim, me abrevio.
ps.: leio jlborges.

::::: :: peixes vegetarianos em rios de sangue:::::

qualquer que fosse sua resolução, o plano era suicida. por isso, a água-viva(_da_lagoa_dos_patos) não ficou muito tempo calculando os pormenores feito o coiote bobo do desenho do papa-léguas. o negócio é que ela queria algo grande. uma conquista para o resto e para o fim de sua vida. a despedida perfeita. então não hesitou em pegar a garrafa pet verde de guaraná antártica que boiava a uns 150 metros da praia do laranjal, agarrar-se a ela, fazer dela uma arma e partir pra ação.
os patos e as garças voavam rente e não muito rápido. as vezes paravam no ar contra o vento. os mergulhão faziam o mesmo. sem pestanejar, a água-viva(_da_lagoa_dos_patos) tomou impulso e jogou-se ao ar desprendendo-se das toneladas de água da lagoa como um foguete que deixa a atmosfera. mirou seu alvo & deferiu um golpe no abdomem dum mergulhão. esse se contorceu. gruniu. entregou-se a queda. a água-viva(_da_lagoa_dos_patos) não perdeu tempo e laçou-o com seus fiapos alérgicos deixando-o paralizado até chocarem-se com a água. o mergulhão não sentiu-se molhado porque estava totalmente incosciente/imobilizado.
pronto. a isca estava pronta. a armadilha estava armada. água-viva(_da_lagoa_dos_patos) consumaria seu parco plano. grandioso & ridículo e vingativo & mortal e Aterrador.
'quanta contradição' a água-viva(_da_lagoa_dos_patos) pensou, 'um mergulhão boiando'. em seu abdomem a marca do golpe. em suas patas amarelas, a garrafa pet verde presa dava um tom azulado e destacava-se nas águas turvas da lagoa. refletido pelo sol então, não havia como resistir. a água-viva(_da_lagoa_dos_patos) escondeu-se atrás de uma alga que era levada pela corrente juntamente com o cadáver do mergulhão e esperou.
uma capivara - que em pelotas chamam de capixu e mesmo assim você pode gritar, gritar, gritar que ela não vai atender ao seu chamado - pastava tranquila até que viu algo preto boiando com um negócio que parecia azul sobre o tom barrento da lagoa. resolveu entrar na água pra ver de perto. nadou um pouco. quando conseguiu ver o mergulhão morto com uma garrafa pet verde presa a suas patas amarelas sentiu nojo e decidiu voltar à margem. virou seu corpo e lá estava água-viva(_da_lagoa_dos_patos) com uma expressão inquisitora do tipo "aonde você pensa que vai?". a capivara, ou capixu, deu de ombros e seguiu num nadar lânguido. a água-viva(_da_lagoa_dos_patos) fez de rogada. irada pulou desvinciliando-se da alga que a encobria e atacou a capivara. ela ficou sem reação. debateu-se, gruniu. num golpe, a água-viva(_da_lagoa_dos_patos) rasgou sua pança e as suas tripas começaram a fugir do seu corpo. esforçou-se tanto que cravou os dentes na água-viva(_da_lagoa_dos_patos). essa foi perfurada e eliminou todo ácido de seu rancor na boca da capivara que paralisou-se na hora. um rato prato de rabo pelado viu tudo e morreu de susto.
os quatro foram levados pela corrente até praia do laranjal. a garrafa pet verde estava ao lado do corpo do mergulhão.
o plano da água-viva(_da_lagoa_dos_patos) foi grandioso e deu certo.

::: hum :::

ontem.
dois andavam de mãos dadas pela areia. sorriam pras gaivotas. molhavam os pés na água turva da lagoa. desviavam de dejetos. adiante, viram um mergulhão. pararam e tiraram fotos. viram a garrafa, desdenharam ou simplesmente não fizeram nada. viram o rato, sentiram nojo.
avistaram algo que ela achou que fosse um tronco, ele achou que fosse um cachorro morto sendo açoitado pelas pequenas ondas. aproximaram-se. "acho que não é um tronco", disse ela. "deve ser um cachorro", ele manteve a opinião - ele. olharam pro chão. uma água viva perfurada com dentáculos (agua viva tem dentáculos?) roxos. "intenso", pensou ele sem manifestar seus pensamentos. tiraram foto com a pressa de alguém que quer saber se aquele negócio boiando na orla é realmente um cachorro morto ou um tronco trazido pelo vento - ou pela maré. perto. mais perto. "um tronco não é", ele disse "porque tem umas tripas saindo da barriga do bicho" (nesse momento já era evidente tratar-se de um bicho, cachorro ou não). mais perto ainda. "que bicho é esse?" ela inqueriu. "UMA CAPIVARA", ele falou "QUE MASSA", completou o raciocínio. pararam. fotos. mais fotos. fotos. uma mulher de meia idade de biquini amarelo fosforecente veio e disse "de onde será que vem esse bicho". ele não sabia o que dizer então disse apenas o que sabia. "não sei". "eu tava vendo o negócio vir e pensei que era um tronco", ela falou. ele olhou para a moça que veio com ela, mas ela não percebeu. pensou em algo intrigante. tipo: será que elas tentam sempre amenizar a situação?
nisso aparecem duas crianças e completam a cena. um menino e uma menina. a menina deve ter uns dois anos a mais que o garoto que devia ter uns 6.
- uiiii. um bicho morto. que bicho é esse? disse a menininha.
- acho que vou vomitar. falou o garoto chegando mais perto da capivara no momento que essa era virada e as tripas esparramaram-se pra fora de sua pança roliça.
- vamo embora. disse a garota num tom de clamor e gozação.
- vô encostar nele. e foi se aproximando o menino. olha as tripas saindo. e ele tava cada vez mais perto.
- vamo embora. repetiu a menininha.
- vo encostar no bicho. acho que vou vomitar. foi o rapaz corajoso enquanto a menina saiu na pernada pra voltar prabaixo do guarda-sol da família.
o casal que veio de mãos dadas tirava fotos. a mulher de biquini amaredo perguntava coisas sobre a capivara (ou capixu) tipo: de onde ele veio, será que alguém matou ele e coisas do tipo que ninguém sabia responder.
e as tripas do animal morto saindo; se esparramavam na água como um mancha esbranquiçada na água turva.
depois de encostar na pata da capivara morta o guri correu gritando EU VOU VOMITAR, EU VOU VOMITAR, QUE NOJO. o casal resolveu deixar as perguntas da mulher de biquini amarelo como se fossem apenas retóricas e foram embora sem discutir o problema do lixo. mas quando chegaram em casa lembraram, reclamaram & não agüentaram o gosto podre da água que saia da torneira. mas acho que isso não tem muita importância porque os recursos hidricos do planeta estão em ótimas mãos e não vai faltar água dentro de pouco tempo. além do mais, os peixes sacos-plásticos, nem os peixes pneus vão morrer

3.2.05
batedores para hugo chavez
batedores para saramago
batedores para luis inácio
batedores para galeano
batedores no saguão do sheraton porto alegre

eles arrombaram minha porta e eu estava de alma nua e azul deitado sobre a cama.garrafa caída no tapete. não derramava nada porque não tinha nada pra derramar. cartelas de prata sobre a prateleira e uma seringa com o resto de água cravada no braço.
o silêncio quebrou-se como a superfície de um poça de lama congelada. devia ser uma lágrima. devia ser uma gargalhada. o sorriso desfeito refletia no espelho sujo caido. o espelho refletia também a janela e a chuva. flashes pipocaram sobre meu corpo. desespetam a agulha. cheiro de éter. tapas na face. não recobro a consciência. eles me levantam. me colocam na maca, me amarram na maca. correm. descem pelo elevador. saguão, olhares, luzes vermelhas piscando, ambulância. "tchau, sonho" penso. gelo de metal no peito dos dois lados. zzzzzzzzzzzzzZZZZZzzzzzzzz correntes elétricas viajam pelo meu corpo. outra vez. mais uma. mais outra. agora sim. posso ver o rancor nos olhos do padre. posso ser deus. sou um deus pagão. tór?
bips. acho que deu certo. acho que estou fudido por mais tempo. correntes de luz verde passeiam pelo monitor de fundo preto. os paramédicos se cumprimentam. "parabéns doutor". "parabéns doutor". sorrisos. e lá vamos nós de novo a caminho do hospital.