numerozero


18.1.05
desviei de um buraco. caí num fosso. quatro metros, braços e pernas abanando. me esborrachei na terra úmida. rosto sujo. costela doendo. um sorriso largo e remela no olho. sou o anti-aldeão de serrapelada. um político de trapos discursando para uma platéia de desacreditados. um fantasma fantasiado - quero ser um hímen rompido.
dialógo com minha parca sombra. praticamente não existo. mas vou pro papel e me recomponho. o computador não levou todas as facilidade.

15.1.05
reduzi. encolhi tanto que agora sou apenas um tumorzinho preto e duro. um nódulo. apenas um farrapo.
mas estou confortável. ainda tenho meus olhos & meu cérebro & minhas lembranças de noites úmidamente violentas. posso captar as variações luminosas; todos seus estímulos / só que insisto em manter-me inerte-silencioso. sou uma espécie de pedra ou planta cuja fotossíntese ocorre através da observaçãocontemplação.
só enxergo em p&b. mas vi que ele se também mudou. virou uma caricatura de si mesmo. mal feita por sinal. seus movimentos previsíveis e suas profundas frases decoradas e repetidas a exaustão. levanta o copo e brinda de uma maneira tão artificial que sinto vontade de me revoltar, mas não o faço - porque ainda me prepara pra meta-morfose. sua boca quando toca o copo. o líquido do copo quando toca seus lábios. é tudo ensaiado em frente ao espelho. roupas me desalinho. sotaque bêbado. filosofia. você chama isso de filosofia? tudo tão pronto/standard/fake. tudo enlatado. se eu falasse perguntaria "aonde o senhor comprou esse modelo?" e já teria uma resposta em minha cabeça (porque todas as perguntas já foram respondidas em algum momento nesse universo cíclico midiático) & ela - a resposta - seria algo do tipo "em 'tal' programa de televisão". nada é original. tudo foi passado pelas ?beges-brancas? máquinas xerox. isso me acomoda e in*tranquiliza. me deixa estático. todas as coisas estão resolvidas e justificadas. não haveria mais necessidade de manter-me em posição de feto

8.1.05
depois de um ano de lobotomias diárias, ainda não estou curado.está cada vez mais difícil fazer esses pensamentos tortos se encaixarem em seus moldes retos. a palavra se fixa numa hermeticidade que não pode ser descrita por palavras. então, logo some. e eu, logo me perco junto com ela. será que o passado nada me ensinou sobre esses beijos molhados e abraços partidos? eu preciso esquecer essa sede apaixonada pela diferença porque se não esquecê-la, morro. mas o problema é que, agora que meu corpo tá seco, eu vejo um manancial de água poluída pode me embriagar e não consigo dizer não pra ele e continuar a encolher.

peguei isso de algo antigo e provavelmente sem valor nos dias de hoje:

coração pulsa forte no peito que se contrai e sangra
o céu está tristemente azul> o vazio se ascentua /
olho pela janela, lá em baixo o trânsito confunde, se expande, se perde - então é parar uma necessidade então é colocar a cabeça sobre o pescoço novamente. desenho um gato num 8 e deixo o vento livre.

vou continuar despedaçando meu cérebro pra ver se aprendo.

as pessoas se roem por dentro pra manter uma postura "foda-se o mundo". e, quando algo que parece a verdade aparece: ofende.
vi uma velha num café externar a dentadura postiça e exibí-la aos convivas enquanto extraía resíduos de croasaint, pastrame, froagá. isso tudo enquanto galinhas cacarejavam ao meu redor. talvez pedindo milho. talvez não.
acontece que vejo minha fraqueza com um microscópio. (!) & dói. dói muito. tanto que sinto cair minha alma na lama. sou incapaz de reagir ao golpe que um espelho me provoca. então sofro. sofro e olho pros meus braços tão cheios de marcas. quase ouço o anjo sussurrando: mais uma, senhor? claro que sinto vontade de dizer sim, mas me contenho e balanço a cabeça negativamente. aceito mais um gole, claro. porque agora parece que as imagens que se formam estão lá apenas pra me apavorar. "será a velhice chegando?" perguntaria um velho idiota. acredito que esse mal não me atinge, pois convivo com ele desde meu parto (ou seria parimento?). acontece que chego aos pés do padre e me encolho. imaginem que criatura pequena sou. sou menos que uma visão de verme. e peço desculpas. isso porque, eu realmente não sei se deveria me desculpar. acontece que minha cabeça de verme tá cheia. meu corpo de verme tá cheio também. e a cidade suga esse vazio, mas não me tranquiliza.
pra isso precisaria de um calmante forte. uma cachoeira de águas geladas batendo na minha nuca pra fazer sentir-me semi-vivo. mas não há água limpa (digo isso com os dedos úmidos). e as farmácias 24h fecharam.

6.1.05
desculpe
hoje estou sem tempo para:
perder dinheiro
começar a fumar
morrer
entrar em coma
sair do tédio
pegar um táxi
folhear o jornal
acordar.
portanto, voltem outra hora.

3.1.05
spray. mais um bafo. uma molhadinha no paninho azul. leva o paninho até a boca. respira. ela dançava na minha frente. cambaleava, pra ser exato. o mundo cambaleava dentro da sua cabeça. gostava de vê-la assim. sorriso vazio e olhinho apertado e fixo ao longe. corpo teso, feito toalha engomada. a visão toda era meio robótica. um tanto quanto mecânica. isso, somando uma parcela ridícula da cena que, ora me mostrava, ora me apagava e revelava essa ausênsia de movimentos que represento vendo aquele cambalear descompassado que tentava levar o paninho azul até a boca com tanta graça.
estroboscópio. luzes piscam como estrelas doentes. música alta e repetitiva. gente demais, se acotovelando demais.
preciso pegar uma bebida falei pra ela. não lembro se ela piscou pra mim, acho que não. abro caminho entre a horda de gente. boate transpira. tenho nojo desse suor. empurro. me irrito. tropeço. xingo. não caio, numa boate lotada ninguém cai porque não tem espaço pra isso. chego ao balcão. mais empurrões. garçon galã se exibe. peço a bebida. bebo. não tudo. deixo um pouquinho. não estou mais seco por dentro. volto. a mesma história de sempre. xingo. tropeço. empurro. me irrito. não caio. lá está ela. no meio do apagar das luzes. parada. mundo dançando na frente da sua cabeça. ela me vê. não sei se sorri. acho que não. ela leva o paninho até a boca. respira. fecha os olhinhos. fica com ele parado lá por mais alguns segundos. tira-o. agora sim, sorri. sorri, mais. abre tanto a boca. que belo sorriso eu penso. será que ela vai gargalhar porque seu corpo está se curvando pra trás. agora está se curvando pra frente. acho que é uma gargalhada. sim. é uma gargalhada. só pode ser uma gargalhada. bluuuuéeeerrrrrggggggg. não. era uma jato de vômito que por sorte (minha e azar da moça que tava me empurrando até alguns segundos atrás) não pega na minha camisa.
o nome da moça com spray é placa. placa asiática.