28.12.04
meu dedo no nariz. moinhos de vento. mezanino verde onde descartou-se a possibilidade de um pulo. o sorriso é estreito. o carro é cinza. metálico é o ruído estridente que ouço enquanto espero pelo hora exata passar e eu perder o momento de agir.
são gritos. um pouco velozes. algo do tipo: tira o dedo do nariz seu porco. por mim, tudo bem. meu dedo grudou lá dentro. não há sinais vermelhos nessa cruz de madeira com uma tabuleta pregada sobre a sua cabeça. ? o que estava escrito ?
faço na rua o que bem entendo. afinal, sou dono do meu próprio dedo.
os dedos & o trafego
em potroalérgico, o trânsito é uma façanha. talvez, uma pintura medonha de algum grafiteiro mal encarado e muito - mas muito - mal intensionado. daqueles que pintam um anjo cagando e batendo uma pra virge_maria na parede oeste branquinha da tua sala de estar. coisa que te faz lembrar que no ano que vem tem natal de novo e que ele vai ser em dezembro / só pra variar um pouquinho.
bom. acontece que na véspera voltei mais cedo. peguei o ônibus pra não chegar em casa na hora de sempre. desci na ospa, quer dizer, do outro lado da independência (centro-bairro / sacam?). e lá tem uma sinaleira. lá tem também uma faixa de segurança. se vc é de porto alegre não deve conhecer ou se conhece não decifra o significado dela. lá é tudo muito feio. plasticidade inútil. ferro retorcido e tinta vagabunda branca. mendigos dormem sobre o olhar estático de maniquins vestidos de noiva. ...mas, desci na ospa. motorista simpático com gorro de papainoel. eptc. cobrador feliz da vida, mesmo ambos trabalhando na véspera do nascimento do nosso senhor salvador - isso há 2004 anos atrás.
bom. lembram daquele jogo de atari: frogger. aquele que um sapo precisava atravessar uma rua. bom. o sapo era eu. parei junto ao, junto a sinaleira e apertei o botão que acende a luz vermelha pros carro e verde pros que vão a pé. a luz não acendeu, mas nenhum carro passou. fui até a metade da rua, afinal, eu era o sapo e não queria ser atropelado. cheguei. ainda, nenhum carro e nenhuma luz - nem vermelha pra eles, nem verde pra mim. resolvi ir adiante. blindado pelas faixas brancas pintadas no asfalto. afinal, não havia nenhum carro. não havia até que eu estava na metade da rua. do nada, aparece um carro preto, do tipo alemão, estrela brilhando na ponta do capô. freia a cinco centímetros da minha perna. "paro. ando", pensei. "ando". chego a calçada. o carro acelera e buzina.
rá. natal é o caralho. mostro o dedo médio pra ele e sigo até a joãotelles. ele dá a marcha ré e grita: o sinal tava verde viado.
minha réplica foi:
feliz natal pro senhor também.
p0r numerozero às 21:16
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23.12.04
dislexi(a)pé/^
gato vegetariano mordendo a batata da minha perna. em que dia mesmo deus criou os dias? ouvi dizer, num livro da biblioteca da faculdade que bobdylan quando criança queria ser uma nota de um dólar quando crescesse. o mistério escondeu-se. desejo, de todos os meus corações a todas as distintas senhoras e delicados senhores um feliz dia do índio nessa muito oportuna data. qualquer dia desses, viro beatnik e pego carona na fama de alguém. é tudo que um Homem pode querer.
não me assustei quando vi. afinal, era só um dente cariado. um dente cariado do tamanho de um urso que se movia e urrava. e não era nada assustador as cáries comendo-o enquanto ele fazia isso com a elegância de uma socialyte que desce a escada em uma festa. o garçon não vai perguntar: a música está muito baixa para o senhor? e, provavelmete, você não responderá com espanto pra moça da mesa ao lado num desses shoppings com pinguins na decoração de natal: beterraba? eu pensei que você estivesse comendo uma calabresa.
p0r numerozero às 11:14
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16.12.04
coisas antigas e estragadas
senti a fraqueza de mim. percorre meu corpo como uma corrente de energia mecânica & envolve meu pescoço & fixa-se com ternura na madeira do "oito" (que sustenta as telhas) da casa - expostondo o sótão pelo alçapão aberto. apenas sento sobre a pia do banheiro e observo o reflexo das estrelas que nascem em meu olho, escorrem pela pele da minha façe caem na poça que lentamente se forma.
sinto a força do aço frio que envolve meu pescoço e tenta separar minha cabeça do meu corpo. o corpo vibra pela falta de chão enquanto a cabeça é levada para longe a procura de um bar bacana com moças dançando em cabines escuras ou de luzes vermelhas que machucariam qualquer olho vidrado, mas são alívio para essa cabeça atormentada a procura de sossego e conforto quente num lugar fétido.
sinto o poder percorrer meu corpo num gole amargo de veneno de ratos dissolvido em café bem forte com duas ou cinco doses de pinga barata para aliviar o reinado do sofrimento que não sinto, mas grito, por muito tempo ainda.
me acompanham nesse lamento fraco do ser a madeira da viga que quebra & a corrente que cai trazendo os destroços do telhado sobre minha cabeça e com que eu desmaie mas não morra.
sinto o volume da sirene da ambulância e sei que não será hoje que deixo de ser o sujeito triste que passeia entre dor e sofrimento e senta nos meios-fios a procura de perguntas para todas aquelas respostas que conseguiu formular nesse tempo todo de estrelas caindo sobre a terra e produzindo o som fantástico de cristal quebrado
quando tocam o chão.
p0r numerozero às 16:25
2 + 2 =
15.12.04
- ... e é grave?
- não. é só uma fase entusiástica que não dura mais do que, mais do que, mais do que ... mas do que mesmo a gente tava falando?
- da gravidade...
- ah sim. é só uma fase e não vai durar mais que um
- ?
- espirro.
p0r numerozero às 13:17
2 + 2 =
14.12.04
encaixotei o resto de vida.
essa coisinha úmida, torta e cheia de sombra entre dois vórtices sem estrelas. parei no silêncio solitáro para arrumar todos retalhos que agora não servem para nada numa caixinha bege. concluí que só existia um jeito de tirar ela da minha cabeça. e pra isso eu precisava de uma arma e mais uns dois golinhos.
p0r numerozero às 21:40
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13.12.04
passei os dedos sobre a folha em branco. "não". movi os olhos sobre o teclado da máquina. "também não". peguei o caderninho preto, aquele de capa de couro. remexi em alguns segredos. "não". "é melhor deixá-los guardados por algum tempo". então, tiro a poeira com futilidades quotidianas.
2) quase acabo de ler o agoraéquesãoelas. mais intervalos na praça e já era. normapropp, professorpropp, mai.
9) hoje tem show da graforréiaxilarmônica e fico me perguntando:
- eles não tinham acabado?
5) minhas lágrimas pesam duas toneladas. as visões são infinitamente mais pesadas.
8) douglas adams; douglasadams; adams, douglas;
3) cansado de sonhos fui dormir.
7) post definitivo. acho que não.
1) tiro essa cópia de cd de cópia de jazz para ouvir o silêncio ou o bater de talheres. ou ouvir um mendigo botar sua cabeça pra dentro da porta e enxergar sua voz no ar pedindo esmola.
- não tenho moedas. tem uma moedinha aí? pergunto de longe.
- não tenho. é por isso que to pedindo. ele responde.
- tem, pelo menos, um cafezinho aí? pergunto.
- também não tenho. o mendigo responde.
- e uma moedinha? tem certeza que não tem?
- se eu tivesse eu te dava.
p0r numerozero às 17:43
2 + 2 =
2.12.04
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