29.10.04
mataram as árvores cobriram o solo com asfalto ou cimento no lugar brotaram postes e vazios de esquecimento entre construções lâmpadas placas luzes sacos lixo carros fumaça mendigos grades papeis vozes poemas cartazes sussurros poeira bancas jornais madeira sombras entulho tijolos novidades conversas crianças prédios casas tombos cavaletes feridas vitrinas tecidos nudez sapatos garrafas poças-d`água ferrugem navalhas reflexos repuxos experiências doenças saídas braços pernas e tubérculos lembranças; da minha doença que dói é como se tivesse um lemingue me devorando por dentro devorando as árvores que existem dentro de mim e as substitui por ruas asfaltadas ou calçadas como a descrita acima.
p0r numerozero às 20:21
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26.10.04
:::::::: saldanha gosta de girica
atraque, revista, batida, blitz, girica. o sujeito com as mãos na parede (ou na viatura) e um homem de farta apalpando seu corpo atrás de qualquer coisa que seja proibido.
saldanha é um sujeito normal. com todo sujeito normal, ele carrega consigo algumas coisas sórdidas. no bonitinha, mas ordinária do nelsonrodrigues ele disse que em toda família alguém tem alguma coisa de podre que faz com que o sistema apodreça - um tio que é pederasta, uma irmã que é puta, um filho que é viado, um pai que é maconheiro. acredito nisso e acrescento que todo mundo tem um lado sórdido. o de saldanha era gostar de levar girica. podia ser qualquer coisa, mas, o negócio dele era esse. quando ouvia "mãos na viatura, filadaputa!", ele quase gozava. tinha taquicardia, suspirava o tempo todo. um horror. e era muito difícil pensar que saldanha era desses. um sujeito acima de qualquer suspeita. de uma boa família. mulher e filho e emprego. tudo certinho e dentro dos padrões. só que ele tinha. pro trabalho ele ia de terno e gravata porque era uma exigência. mas, as vezes, voltava pra casa mais cedo e botava uma rouba rasgada e fedorenta e ia pra rua atrás de algum lugar onde tivessem guardas para poder ser revistado. aí, fazia de tudo para a girica acontecer e ele poder ser apalpado pelo policiais. teve vezes que até chegou a levar uma mochila com as roupas esfarrapadas para o trabalho porque soube que na frente da repartição haveria uma manifestação de estudantes e a polícia estaria lá. saldanha também estaria lá e, provavelmente, incitaria a juventude para levar uma girica e suspirar e ter taquicardia e quase se gozar todo. saldanha gosta de girica. uma vez, enquanto ia pro trabalho, ele viu o maior tumúlto no centro. polícias descendo o sarrafo nos camelôs que vendiam bujiganga e contrabando em suas barraquinhas. ele nem se mexeu, ficou vendo a confusão de perto e até atirou umas pedras contra a brigada de choque. quando a polícia praticamente controlou a situação e mandou ficarem todos com as mãos na parede, lá foi o saldanha, na expectativa de ser apalpado por um homem de farda. ele tava lá, esperando. quando chegou a sua vez, o guarda disse "o senhor pode ir". "como" surpreendeu-se saldanha. "o senhor pode ir. e desculpe pelo incoveniente". saldanha se sentiu rejeitado. olhou pro seu terno e pra sua gravata e perguntou pro guarda "por quê?". "o senhor não tem nada a ver com isso" respondeu o policial. "tenho sim. me revista. por favor, me revista" insistiu saldanha. "vá embora, por favor. o senhor está atrapalhando nosso trabalho" prosseguiu o guarda perdendo a paciência. "mas eu quero. eu preciso. eu pago" saldanha foi ao desespero. seu lábio inferior tremia. uma lágrima já se formava redonda no olho esquerdo. nesse momento ele maldisse seu terno e gravata. então gritou pro guarda "EU GOSTO DE LEVAR GIRICA SEU MILICO FILHADAPUTA". o policial disse "agora chega seu burguês de merda. tá em cana" e levou saldanha sorridente pro camburão.
chegando na delegacia, ele não levou girica nenhuma. levou umas porradas e bota porrada nisso. os agentes bateram nele de tudo que era jeito e com tudo que foi coisa. um sabonete dentro de um meia. deram socos em um livro escorado nas costelas. a partir desse dia saldanha não gostava mais de levar girica. ele descobriu outra coisa que o excitava na vida: levar porrada de policial.
p0r numerozero às 19:05
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25.10.04
::::::::::: a c i d e n t e s
Eles nem eram amigos, mas tavam ali. Dividiam sua agonia. Sentados em baixo de uma árvore no trevo de acesso a Três Coroas dividiam também o resto da pepsi-cola com cachaça que bebiam no gargalo da garrafa de dois litros enquanto viam os carros vermelhos, prateados e pretos passarem veloz em direção a um jantar romântico ou mela-cueca em Gramado ¿ a cidade mais fake do universo.
Quem passava dificilmente avistava os dois sentados. Dava pra ver suas bikes deitadas na grama sob a luz. Eles se abrigavam na sombra. As vezes falavam alguma coisa do tipo:
- Será que é melhor buscar mais bebida?
Ou:
- Tu conhece aquela mina que trabalha em tal fábrica?
Ou ainda:
- Caralho, tava uma fila do inferno pra pegar o seguro desemprego.
Mas, na maior parte do tempo preferiam o silêncio. Observavam os faróis dos carros, imaginando as mulheres perfumadas que iam ao lado dos seus carinhas com roupa de domingo e essas coisas. Pensavam que talvez fosse diferente se fossem eles que tivessem dirigindo aqueles carros vermelhos, prateados e pretos que passavam veloz. Com certeza seria diferente.
Ficaram lá um tempo. Até que o movimento praticamente cessou. Depois, eles viram o trânsito aumentar novamente. Só que dessa vez, em sentido contrário. O diálogo não mudou muito. Nem evoluiu. Afinal, eles não eram tão amigos assim e sua pepsi-cola com cachaça já estava no final. Falaram coisas do tipo:
- Galera ta descendo com a barriga forrada.
E:
- Alguns devem ta muito loco de tudo que é coisa.
E também:
- Gramado é uma bosta. Só tem bundão.
Depois, voltavam ao silêncio.
O trânsito de carros vermelhos, prateados e pretos diminuía. Cessou. A garrafa plástica de dois litros secou. Acho que já era tipo 5h. O céu começava a ficar laranja. Quando eles levantaram e saíram de baixo da sombra da árvore do trevo de acesso a Três Coroas. Juntaram suas bikes. Jogaram a garrafa plástica no meio da estrada. E foram embora sem se despedir, afinal, eles não eram amigos nem nada. Só estavam ali, porque na cidade não havia nada melhor pra fazer. Quando se separaram pensaram praticamente a mesma coisa:
- Um sábado de bosta pra fechar uma semana de merda.
A caminho de casa. Um dos dois (não lembro qual) foi atropelado por um carro amarelo e veloz com motorista bêbado de tudo e sua namorada louca de qualquer coisa. Morreu. No acidente morreu também a moça. Acho que os dois subiram juntos para o céu, ou desceram juntos para o inferno. O motorista vai ficar pra sempre travado numa cama com seqüelas que deixou ele débil mental.
O outro que deixou o trevo de acesso a Três Coroas morava no outro canto da cidade. Numa região rural. Roça, é como eles chamam lá. Não ficou sabendo de nada do acidente até o outro final de semana quando sentou na sombra da árvore e bebeu a pepsi-cola com cachaça sozinho. Voltou pra roça picando, escorado na bike.
p0r numerozero às 13:19
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22.10.04
todas as ogivas do universo!!!!!!!!!!
agora o numerozero é XP. são quatro novos discos de jazz. isso inclui uma caixa com três do miles - yeah! tá colado na bandeja do som. todos os três.
fiquei mulheres do charlesbukowski mais loco, mais estúpido, mais vazio, mais vagabundo, mais cheio de mim, mais desempregado, mais bêbado, mais nada, mais ou menos. em homenagem a henrychinaski comprei 12 e já matei duas. até o fim desse texto espero ter matado 4.
no futuro levanto a promessa:
- destruirei as cidades da noite escalate do burroughs.
"gosto dos escritores cujo nome começam com a letra B". essa frase é do kurtcobain.
referências a fragmento.
tempestade de cut-ups.
um gole pelo aniversário do rimbaud.
dois pela morte do kerouac.
atravessando a mesma rua, fui atravessado pelo mesmo pensamento. meu coração tá endurecendo. de novo. e dói lá dentro porque força a carne e aperta a caixa toráxica. joguei papel carbono numa poça d´água. esperei e ela virou uma porta negra. um pequeno câncer no asfalto. "deixa pra lá", ouvi alguém que passava no sentido oposto dizer. NÃO - não deixo nada passar porque sou escravo dessa vida. a prisão a que todos sucumbem. alegria - agora. desci a rua a procura de sorrisos. uma chuva de flores suicidas que se jogam das árvores e se espatifam na calçada. fodam-se flores mortas. eu não tenho florestas. eu tenho um grande pensamento desconexo. um problema infinito. fodam-se pensamentos infinitos. fodam-se peixes. não consigo ser medíocre. perdi de novo. sou ruim. que merda; que merda.
vou até a geladeira. abro o freezer pegou outra garrafa. abro e bebo. volto para cá.
lembrei que não me ajoelhei para juntar o ouro que brotava nas sarjetas. cuspi nas promessas. fodam-se políticos. fodam-se espertinhos.
bati mais uma foto do cactus contra o sol. meu sanpedro cresce sem doença. miles sopra. "sopra filadaputa". dá vontade de gritar. escrevi dois contos. acabei dois romances. quem publica? não importa, ninguém lê. prosa doente, deficiente, viciada, cega, surda e muda, sem nada, nenhum vínculo: nem vida - talvez morte, sem amor, apaixonada, com ritmo, ... e erros de gramática, tosca, inacabada. CAPS LOCK estragado. escrevi uma prosa estragada. revirem-se no túmulo:
- baudelaire;
- benjamin;
- burroughs;
- bukowski;
- blake;
- beckett;
- breton;
- borges;
revirem-se.
sim
Sim
SIm
SIM
quero ouvir seus gemidos mortos.
feche os olhos
vou tirar a camisa
abra a boca
vou jogar os remédios pra cima
uma cartelinha inteira. viagem no tempo garantida. internet, deixa disso. deixa o resto pra lá. flores mortas suicidas. cai mais uma, cai mais outra. batemos palma. reverência. um réquiem para salieri, o melhor vilão de todos os tempos.
uma linha de trumpete.
outra linha.
um trumpete reluzente.
"estamos chegando a algum lugar?"
talvez sim,
talvez não.
um novo morto.
no japão.
agora esperem que o abandono não é eterno. a solidão também não é. mas os tempos de fome e desespero demoram pra passar. isso eu tenho certeza. pois todas as vias estão congestionadas. abro a quarta / o miles acaba. adeus.
p0r numerozero às 19:59
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18.10.04
maldito. de todos os problemas e defeitos que eu tenho (e são muitos), o que mais me incomoda é a falta de mediocridade. é foda. mas quando paro e penso no assunto, vejo o quanto isso me atrapalha. isso porque sempre prefiri os extremos. sempre achei melhor ser ruim do que ser medíocre já que genial eu nunca conseguiria /conseguirei / ser. e agora eu pago por isso.
a escolha de uma atitude medíocre te impulsiona em direção a massa. a maioria é sinônimo de mediocridade e se identifica com a produção em série e a repetição até a burrice absoluta e infinita. e é a maioria que consome. e é esse consumo que te alimenta a fazer mais coisas dentro da média. a mediocridade põe a mesa; paga roupas decentes e jantares impressionantementes medíocre; paga gasolina; conforto. LITERALMENTE. além de, é claro, te identificar pessoalmente com as outras pessoas e te trazer amizades mais fáceis e amenas (coisa que cito aqui, mas dispenso terminantemente).
essa assunto pode estender-se para qualquer lada que ela está lá no topo, mostrando os dentes arreganhados de sua estupidez ou as garras afiadas e mesquinhas. a música é medíocre; o teatro é medíocre; a literatura é medíocre; o cinema é medíocre; os artistas são a pior raça de todos. quem hoje em dia é gênio? stephenhawking é uma máquina que repete o que um computador manda ele repetir. michealmoore é um cuzão. radiohead, nesse eu não bato, respeito porque meu gosto ruim o aceita. fernandamontengro e esses filho-da-puta do teatro/tv ou esse chupadores de pingola da nova (uuuuuuu) literatura agonizam afogados em sua mediocridade de fragmentos para manutenção.
só que agora não importa.
é: foda-se sujeito genial!!!
e: foda-se estéta do horrível
& eu?
eu sou RUIM, que isso fique claro e não por muito tempo. com relação a isso, estou fazendo de tudo para mudar e virar um medíocre completo também. um canalha que enganará aos outros se conseguir enganar a si mesmo.
p0r numerozero às 13:05
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14.10.04
sabe como é, eu ja tava fazendo vários planos - se conseguisse aquele emprego. nada assim MEGA/ULTRA/SUPER, mas coisinhas importantes, felicidades instantâneas. dois cd´s, um dvd e um livro do jeffbuckley; o cureofpain do morphine e uma certa independência financeira saudável com algum lastro para por a leitura em dia. só que - pra variar um pouquinho - eu caguei tudo novamente. baita merda. escrevi uma peÇinha em oito atos. "é muito triste" eu ainda vou ouvir. "é muito óbvio" eu ainda vou falar. (óbviamente, agora vou abrir os classificados do jornal e mergulhar em um vazio sólido de todos os dias que fico sem vontade de mover minha bunda magrela para fora da cama.) tentei mudar o tom, mas não consigo. sei o que querem me dizer, mas não quero ouvir o que dizem. leio bukowski para deixar a narrativa mais engraçada e amena. porque o texto, assim como os textos do velho buk, estão repletos de álcool e em todas as páginas tem copos, bebidas e cigarros ...
só que não existe diversão desassociada. não no momento. nem cobrança maior que uma cabeça doendo. resolvi continuar a estorinha porque ela descarregava uma energia. no final das oitenta páginas, seu nome é SIMPLES. e não serve pra nada.
me desligo. como se conseguisse. ligo a televisão. como se adiantasse. vejo:
roubaram um portinari e penduraram na cozinha de um casebre na encosta de um morro na periferia da periferia do riodejaneiro (AARRGGGGGHHHHH! - vômito). a dona da casa, achou a pintura feia. o âncora do jornal da tevê disse que os ladrões pertenciam a um quadrilha internacional de roubos de obra de arte.
não tem como não perguntar:
- COMO?
& +
- UMA QUADRILHA INTERNACIONAL DE ROUBO DE OBRAS DE ARTE SABERIA QUE A TELA VALE QUASE 500 MIL?
p0r numerozero às 19:24
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12.10.04
me ame. me deixe dormir no sofá hoje à noite.
recordar o cheiro de cola do teu guarda-pó. esse que é o cheiro da cidade... que era, e ainda é, assim desde os tempos que andávamos em círculo ao redor das fábricas até a lua encher-se como uma placa contornada com néon e o vento erquer-se suave como uma navalha para fundir nossas promessas e cairmos adormecidos nas portas dos fundos das casas de pessoas que nunca vimos a cara, mas sabíamos que suas faces estarão repletas de rachaduras e fungos. deixa eu acordar entre esteiras mecânicas, latas de solventes e máquinas automáticas de sucção de resíduos que grudam na minha pele suada. deixa eu dormir no teu sofá pra lembrar do tempo que eu feriria meu pescoço sem hesitação. que me puxa para dentro dos teus sonhos ... era desse jeito que eu realmente te amo, é com dor qu´eu te amo.
p0r numerozero às 21:16
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E do amor gritou-se o escândalo
Do medo criou-se o trágico
No rosto pintou-se o pálido
E não rolou uma lágrima
Nem uma lástima
Pra socorrer
E na gente deu o hábito
De caminhar pelas trevas
De murmurar entre as pregas
De tirar leite das pedras
De ver o tempo correr
Mas, sob o sono dos séculos
Amanheceu o espetáculo
Como uma chuva de pétalas
Como se o céu vendo as penas
Morresse de pena
E chovesse o perdão
E a prudência dos sábios
Nem ousou conter nos lábios
O sorriso e a paixão
Pois transbordando de flores
A calma dos lagos zangou-se
A rosa-dos-ventos danou-se
O leito dos rios fartou-se
E inundou de água doce
A amargura do mar
Numa enchente amazônica
Numa explosão atlântica
E a multidão vendo em pânico
E a multidão vendo atônita
Ainda que tarde
O seu despertar
p0r numerozero às 20:04
2 + 2 =
novamente
e mais uma vez
falhei
parabéns ao fracasso.
p0r numerozero às 20:02
2 + 2 =
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