::numerozero::
cao$ - micro fonia - sur/r&alismo


30.3.04

,,,,,,,,,,,compilação

admito: se alguém é responsável por fuder com o mundo, essa pessoa fez um serviço de primeira. hoje, novamente, pensei em dar minha contribuição. duas senhoras de meia idade mereciam uma rasteira. mas mantive a indignidade de não dar rasteira nenhuma. anti-ontem enquanto caminhava quis fazer um canudo de jornal para bater na nuca ou na orelha das pessoas. fui trombado tantas vezes que não faria mal nenhum descontar isso em células da maré de gente.
enquanto a noite caia e eu voltava para casa, olhava para a boca das pessoas. os dentes que nela sobravam reluziam feito fluorescentes.

um pensamento facilmente constatado:
pedintes nunca esmolam de pé.
(pretendo desenvolver esse assunto posteriormente. levar em conta a necessidade de submissão aos portadores de dinheiro.)
se for de seu interesse, agua rde.

mantenho silêncio. deixo uns links.

tonto
coruja de minerva
opera graphica
...
foda-se os correios!

postado por FELIPE DREHER às 22:36
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22.3.04

: : : : : : :::::::::: vejo emily brincar ::

pela manhã servi suco de tangerina para mim e para meu gato. enquanto bebia, via que o gosto do suco era igual ao das balas "soft" que foram tiradas de circulação no final dos anos 80 porque um monte de gente - principalmente crianças - morriam engasgadas com elas.
pois então, estava bebendo o suco e seu gosto me lembrou do dia que eu morri. o ar não passava pela minha traquéia, eu agonizei um pouco e pá. caí pra trás. tudo ficou preto e molhado (que primeiramente pensei ser suor me empapando todo, mas depois eu vi o que era) e envolvido por líquido amniótico. vi a luz e para lá me dirigi. encharcado da mistura placentária e sangue, chorei. depois de mim, vieram mais oito. estava cego, mas a claridade transpassava as minhas pálpebras e o branco invadia minha retina. sentia o mundo frio. bebi o leite do peito de minna mãe. encostei minha cabeça na barriga de meus irmãos.
meus olhos se abriram.
fui tocado. acariciado. mimado.
andei sem exitar.
deixei a caixa. minha mãe me carregava carinhosamente para vários lugares. estava sempre próximo a sua boca. sempre próximo ao seu coração.
corri com meus irmãos quando a idade avançou. tempos depois, deles fui separado.
levado no colo por uma meninina que não fedia nem cheirava (influências do wanderleywildner).
fiquei na minha. sua mãe gritava para ela me soltar de vez em quando.
mas eu gostava de seus braços.
sinto falta de meus irmãos.
... e (volte ao título).

postado por FELIPE DREHER às 11:49
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21.3.04

ficções 24x36 mm

postado por FELIPE DREHER às 11:17
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s on ho ,,,, núm ero hum ::::
para quem quer dar um passo além daquele carinha que leu um do fernando pessoa no póquet

o sonho era o funeral de meu pai. era eu quem o assassinava. não pelo amor que sentia, nem pelo ódio que crescia em mim. mas pelo sentimento de arrependimento e vazio que brota nos seres humanos depois de um patricídio. estranho matar sem sentir raiva. estranho viver sem sentir nada, mas a história está cheia de fatos que justificam meu ato.
foi um golpe - só. nada físico também, diga-se de passagem. deixei a distância e o corpo dele morrerem pra voltar e chorar no velório mais que todo mundo que estava na sala naquela mórbida situação. minhas lágrimas tinham gosto de mijo, minhas roupas, o cheiro de um cemitério. minha pele era mármore e meus pêlos, granito.
ele já havia sido enterrado e eu não podia por os olhos para o alto. imãs puxavam minha visão para a terra. orgulhoso de minha vergonha, me tornara dono daquela terra que agora meus pés pisavam. as pessoas me consolavam sem saber que tinha sido por minha culpa que ele havia morrido.
eu vagava e encontrava orgias entre homens e animais e ria e pensava que antes de tudo ele enlouquecera e vendera todos os objetos da casa. um negociante português usava o telefone e oferecia os móveis e a prataria pelo melhor valor/mixaria possível, até chegar a hora de vender o próprio telefone, aí não sobraria mais nada além de dinheiro e do leito em que o pai, onde ele se encontrava assassinado e moribundo pelo sentimento que tinha em relação ao filho. desfalecia, secando aos poucos & sua pele enrugando e seu sangue ficando cada vez mais lento nas veias azuis e as mexas de cabelo branco colando em sua testa pela líquidez do suor que da seiva da vida que o seu corpo deixava.
a vergonha é um sentimento pouco nobre que preenche as expectativas das pessoas. pois a vida das pessoas não é repleta de nobreza e sim de sentimentos que fazem seus olhos voltarem-se pra terra cobiçosos por essa terra que algum dia herdarão e perderão assassinados pelas mãos dos próprios filhos.
mas minha vergonha foi maior, apoteótica, apocalíptica e sublime quando tomei a filha de meu pai nos braços e beijei-a e ela retribuiu meu beijo e deitamos e ela me convidou para arruinar-mos nossas vidas num réquiem absurdo.

postado por FELIPE DREHER às 11:14
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ex
crever u post está eio difícil. o e e não está funcionando. esse proble a no teclado e deixa aluco. é confuso escrever desse jeito. parece u a for a de gagueira, não? i agine se a letra que estivesse falhando fosse u a vogal! esse co putador precisa de uns te pos nu a clínica de repouso.

postado por FELIPE DREHER às 10:54
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20.3.04

:: l as an h a_ a _ma r g u er i ta

depois de uma semana de expectativas-esperança; expectativas-frustrações. a vida acalmou e está quente e suave como um beijo de boa-noite.
nos estabelecemos confortavelmente entre as paredes brancas e verdes de nosso apartamento e levamos uma vida que a muito eu esperava. e ela está tão adequada que chego a pensar que essa vida esperava a mim também.
fiquei uns tempos afastado; eu sei, há muito tempo os textos do blog não eram tão diretos, mas isso não significa uma volta ao conceito básico dos diários; acontece que estávamos sem computador e cibercafés não são muito minha praia, embora tenha frequentado uma lan house semana passada.
mas como eu ia dizendo, as coisas estão estáveis. ontem fiz um jantar, porque agora temos cozinha e hoje fizemos compra porque na nossa cozinha tem armários. ha! quando trouxemos o computador, trouxemos o thom. uma viagem de uma hora e meia de trêscoroas a portoalegre com um gato solto no carro não é a experiência mais agradável do universo. uma hora pensamos que - segundo a carol - ele tinha defecado em cima do computador dela, mas - segundo eu - o local onde suas fezes se depositavam era em cima da minha impressora. isso não aconteceu, azar ou sorte. o negócio é que ele agora está deitado ao meu lado com a cabeça em cima dos sapatos da carolteresa que dorme um pouquinho em quanto eu escrevo no escritório atrolhado de livros aqui de casa.

*** tenho uma histórinha na minha cabeça, mas não vou contá-la porque esse texto é basicamente sobre o decorrer dos dias dessa semana, o que pode estar deixando os leitores putos da vida com meu cotidiano sem graça escrito nesse bbbblllllloooooogggggg.
mas a histórinha - antecipando um pouco os posts que virão a seguir - é sobre um carinha que sai pra dar uma volta de carro e, de uma hora pra outra, um porco cai em cima do capô.

lembrei esses dias que o professor da escola de arte da flávia pediu para ela fazer uma perfomance relacionada com sua arte. ela cria seus desenhos tendo como suporte tiras de pano horizontais, nos quais ela desenha, costura papel-manteiga, borda, ... .
bom, acontece que ela não tinha vontade de fazer essa performance pois não sabia ao certo como performatizar sobre aquilo. ESSA É UMA INTROMISSÃO, NÃO SE SINTAM COAGIDOS. mas minha proposta é mais ou menos a seguinte.
gravar o som de uma máquina de costura trabalhando & fazer um loop.
filmar uma agulha furando o dedo e o sangue formando uma bolinha e escorrendo. colocar para repetir a cena, sendo que a cada instante deixar que o sangue vá um pouco além do ponto que foi deixado ele ir anteriormente. projetar esse filme na superfície de um balão de festas, aqueles que se põe pequenos brinquedos e são estourados nos aniversários de criança. lembra?
e por fim, ela ... riscando gotas dentro de um desenho de um chuveiro gigante, sendo que a água pode ser representada por aquelas fitas prateadas num espaço cercado por fios elétricos.

talvez ela não goste de minha idéia, mas tudo bem. (acho que ela nem lê esse blog mesmo.)

... e por falar em porco caindo no capô de um carro, aí vai a tão esperada receita da lasanha a marguerita:
- vinho tinto (cabernet sauvignon se você tiver um dinheiro, se não, qualquer vinho seco)
- dois copos
- um molho de chaves resistentes para você empurrar a rolha para dentro da garrafa, porque não ter saca rolha é foda.
- uma escova de limpar azuleijos para bater na cabeça da chave e ter algum resultado na tentativa de de empurrar a rolha.
modo de preparo
beba um monte, ligue o forno, monte a lasanha colocando uma camada de massa, seguida de uma camada de molho de tomate com manjericão e uma camada de queijo, repita até preencher o espaço da forma. leve ao forno e quando estiver com uma boa aparência,,, bom apetite.
obs.: não esqueça de untar a forma com azeite.

e por fim ...

o douglasdickel fica sempre fazendo uma lista com os nomes de seus sósias. eis que andava por trêscoroas e encontrei um sósia do douglas num cartaz de um show que aconteceria no ginásio do sun_dance. clique aqui e confira.
(esse cara é um dos vocalistas da banda!)

ahhhhhhhh. ainda; ; : : :: : ::

quarta-feira fui ao funeral do póquet. descanse em pa(s).
algum dia o estra gu i s mo também terá um requiem¨¨¨¨¨¨¨por-enquanto

só lágrimassssss de m(a)endigos frustrados.

postado por FELIPE DREHER às 20:01
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14.3.04

exercício t e r rr o rr rrr anti- ontem ::: :

sobre o futuro do pretérito

o futuro visto em décadas passadas é fascinante.
até os 50´s, dois mil e quatro seria o ano de voar em espaçonaves jetson, viver acima das nuvens e essa coisa. nossos avós estão frustrados e não dominam completamente a linguagem java dos liquidificadores desse tempo. nos 60´s, drogados de erva pensaram na nova era, 100 guerras e o escambau; nossos pais assistem invasões no orientemédio pela cnn com a mesma cerveja que bebiam naqueles anos coloridos só que ao invés de sentarem na grama, acomodam seus traseiros em confortáveis sofás de tecido italiano. 70´s é o começo do futuro como o estamos vendo agora. discotecas viraram blogs e fotologs, punk transformaram-se em yuppes e faturam um dinheiro cantando velhos sucessos tipo "não seja estúpido". os 80´s, bladerunner total. proliferação dos shoppingcenters e da estética da sombra. os noventa começaram preto e branco e acabaram colorido de lsd proclamando o fim do mundo e o retorno da nova era e e essas bostas todas, esperança com o início do novo milênio e muito promiscuidade sexual que desencadeou a aids que foi desencadeada pela putisse proclamada nos 60´s. a revolução sexual ainda não foi compreendida e a compreensão social está longe de um patamar tolerável. dois mil é a época de pensar no momento passado. falar do ontem pelo computador e andar em automóveis velhos e poluentes. e rir e ser estúpido e ser o mais vazio possível para estar acompanhando a onda, quem sabe até pegando um jacaré na onda e quando chegar na praia ver que a areia está escondida embaixo de muito lixo.

sobre as noites

preciso de ânimo para voltar a ver as estrelas velhas e grisalhas. preciso de um pulmão novo e de aço para agüentar a acidez do ar da noite. preciso de folhas para registrar a idade das árvores e a quantidade de passos que gasto para chegar aos teus olhos. preciso - novamente - de manhãs que seja eternas e destinadas ao sonho para que essas noites voltem. agora, quero elas ao teu lado.

postado por FELIPE DREHER às 10:52
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13.3.04

:::::: con s i de ra çõ e s so b r e a visã o de o n t em :
o beco dos livros inaugura sua 6 loja na capital dos gaúchos

no final, é mesmo coisa de internet. todo esse vazio. ninguém mais percebe as diferenças sutis, mesmo quando elas estão escancaradas, ou ainda, sendo gritadas no teu ouvido. queria terminar um texto. queria por um fim, mas isso trairia meus ideais estraguistas. não quero ser amigo das pessoas importantes. estou fazendo contato e vou entrar como lateral direito de um time de várzea lá da restinga ou do belémnovo. quem sabe não pinto uma camisa com os dizeres mais positivos a favor das novas tendências mofadas e repetitivas de sempre. você sabe o que faz e fica nisso. não ultrapassa a si mesmo. não consegue fugir disso.
são só cores, anúncios numa lista telefônica ou num caderno de classificados que cobre um corpo gelado numa noite vazia. o que sobra é a ferrugem dos prego simétrico criado para crucific_arte.
talvez o mau que vc tenha feito a humanidade justifique esse outro mau que vc faz agora a humanidade e seja realmente preciso representar "santos&deuses" para passar longe do purgatório. estou queimando. você está apagado aos meus olhos. aos olhos do mundo. vc foi absolvido. mas eu não te perdoo. e você insisite em pedir meu perdão. não, isso não me toca. não, isso não é arte. te chuto como um cachorro de madame que tenta abocanhar minha canela.
o negócio é mais ou menos assim: o artista não percebeu que não passa de um publicitário. suas exposiçôes lotam. e a sala está cheia de pinturas mediocres. o pior de todas as referências sem conseguir criar algo novo, algo próprio.
de que vale a corrida enlouquecidada pela fama e pelas fotografias nos cadernos de cultura se você é um rio perene pronto para se esgotar?
queria ter nascido cinza. um solo nada fértil e já totalmente esgotado para ficar lutando comigo mesmo para ver ser produzo algo. ser agricultor de meu minifúndio improdutivo.

ao re-flexo de VENEZA*

na cidade, todos os mendigos são produtivos como baskiat. happenings acontecem a todo instante. teatro de rua te comovem até as gargalhadas. nos passeios se ouvem as máquinas de escrever comporem novas peças de teatro. os romances e as poesias estão vivas. a cidade respira o monóxido e transforma o fedor em perfume. nos cafés do centro à periferia se discute filosofia, astronomia, matemática. a metafísica extra-currícular está na boca de professores libertários das escolas.
o lugar é um antro-prolífico de gênios e artistas. pessoas sensíveis que enxergam no presente o momento que está criando o futuro. editoras olham para as novidades e bancam a subversão. novos moldes são frágeis, tão frágeis que ninguém dá bola para eles. bandas criam uma sonoridade tão perfeita quanto o silêncio.
essa cidade não é veneza.

*para tchecosta

postado por FELIPE DREHER às 10:43
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9.3.04

pé na jaca


cara, se os anos oitenta foram a década perdida, o que eu posso dizer dos 90's? e quando eles estavam quase acabando, e eu ainda me sentia estranho nos passeios que eu dava durante toda a tarde. não era uma sensação muito diferente da que eu sinto agora, mas eram outras encanações e essas coisas todas. eu andava pra caralho. ficava vagando e pensando, como se meu cérebro funcionasse com a ajuda motora das minhas pernas capengas. lembro que era meio primavera, as folhas não preenchiam todos espações nos galhos das árvores, a cidade tinha um cheiro de limão e perto da minha casa dava para roubar pêssegos meio verdes que fugiam pelas grades da casa de uma velhinha que andava doente (hoje já não está doente porque morreu).
lá em casa era um caos. meu velho saia na sexta e voltava só na segunda. minha mãe chorava e desligava o fio do telefone da tomada porque toda hora (ou melhor, durante uma hora inteira) ele tocava e quando a gente ia atender, os filhos-da-puta desligavam. mais foda ainda era quando a ligação era a cobrar.
acho que minhas andanças adolescentes e minhas encanações tinham um pouco a ver com isso também, mas não só. sempre andei sozinho. não sei executar um comportamento público adequado e minhas conversas comigo mesmo são sempre mais interessantes do que as que eu tenho com as outras pessoas.
o negócio é que eu tava meio fudido por uma porção de coisas. emprego de merda; namorada que não parava de encher o saco e o ex-namorado dela era um filha-da-puta que sempre que me via, passava de carro bem perto de mim para tentar me espantar e essas coisas; muita reclamação por todos os cantos; pouca coisa pra fazer além do bom e velho escapismo ocasionado por doses cavalares de álcool (que vendo hoje em dia, não ajudavam tanto assim) e livros e rabiscos em papel guardanapo.
resolvi então que era hora de dar um tempo. um tempo de tudo. tipo uma lobotomia momentânea para qual eu pudesse fugir. porque eu tava afim de escapar não só das confussões em casa, mas também dos rolos maiores que tinham na minha cidade de merda, onde toda a noite, depois de uma bebedeira e de uma drogadeira alguém saia magoado. e, na maior parte das vezes, esse alguém era eu. sim senhor. caralho fudido. porque no final das contas, que sempre toma no cu e acaba na merda é você mesmo.
nessas de fugir eu consegui enrolar mais dois parceiros me emprestarem um violão e uma lanterna. peguei uma parte da grana que eles tavam me devendo no emprego, coloquei minha coisas na mochila, combinei uma última passadinha no bar para pagar a conta e beber um último gole e caí na estrada.
na mochila eu levei, exatamente: quatro bermudas, dez camisetas, dois casacos, um tênis, um chinelo, protetor solar, duas garrafas de vinho, 200 g de baseado, um livro do allenginsberg, uma caneca, uma calça, a barraca, uma manta e o saco de dormir.


I - perca-se, é a melhor forma de se encontrar
saí no meio da manhã, tipo dez horas, e fui até a rodoviária. comprei uma passagem até uma rodoviária de alguma cidade maior que a do buraco onde passo a maior parte da minha existência. de lá peguei o primeiro ônibus interestadual que partisse. ele me levaria ã curitiba. beleza. sentei na janela. ao meu lado um negro. ele fazia vendia velas. ia até curitiba, depois para sãopaulo. curtia raves no meio do mato. só ele falou. o cara falava muito. era burocrático pra caramba. sabe aquelas pessoas que ficam te apurrinhando? antes de pararmos no primeiro muquifo de beira de estrada ele já tinha me mostrado seu catálogo de velas umas duas vezes e tentado me empurrar umas bugigancas que ele tava afim de vender (só quinquilharia do tipo boné americano e essas porras e as malditas velas). na primeira parada no estado do paraná resolvi saltar fora. o ônibus fedia pra caramba e o cara tava me esmagando no banco. descobri que aquela tinha sido a melhor opção porque fiquei sabendo que tinha um casal de bolivianos que tavam viajando a umas quatro poltronas atrás da minha que tinha enchido a mala de ecstasy e a policia rodoviária tinha uns contatos e sabiam a respeito da droga que eles tavam levando (uma pena que eu não sabia) e deram uma batida no ônibus trazendo transtorno pra 31 passageiros.
não fiquei nem um minuto naquela parada de ônibus. as paradas que os ônibus fazem durante uma viajem são a maior roubada do universo. geralmente a comida é nojenta e os motoristas ganham uma grana e essas coisas todo mundo sabe por isso eu não vou ficar gastando o tempo de ninguém. parei num bareco a uns duzentos metros da parada de ônibus e tomei minha primeira cerveja da viajem. era tipo 6 horas da tarde e eu tava meio pensando onde eu poderia dormir sem sofrer algum dano físicos e essas coisas. o local escolhido foi perto de um posto da polícia onde tinha umas árvores e umas gramas que eu podia deitar meu saco de dormir e passar a noite sossegado. ou quase. porque quando se dorme sob as estrelas é difícil pregar o olho. o céu é um vértice e o universo se abre. as estrelas se multiplicam e tudo fica muito mais limpo.
quando o sol bateu nos meus olhos, eu levantei, dei uma mijada nas árvores, escovei os dentes e bebi uns goles do vinho e fumei um gigante baseado. parei num desses trevos que tem no meio da estrada e esperei pela primeira carona. os carros diminuiam a velocidade para voltarem ao fluxo. nessas eu tentava convencer os motoristas a me levarem junto. qualquer lugar estava bom contanto que fosse em direção ao sul. acho que naquele momento, inconscientemente eu já começava minha viajem de volta, porque desde que eu tinha saído de casa, as atormentações ainda não tinham sumido, muito pelo contrário, elas batiam forte na minha cabeça pois naquele tempo eu ainda sentia remorso.
não demorou muito, o motorista de um carro parou e ofereceu-se para levar-me. ele iria mais para o leste do que para o sul, o que acabou calhando porque uma viajem pelo litoral era uma boa, ainda mais que o verão já se anunciava com suas garotas de biquini e suas brisas escaldantes no meio da tarde. paranaguá se apresentou ao meio dia. deu pra ver o trem se arrastando lento pelos trilhos ao lado da estrada. o ar parado e as doenças que saem pelos poros de todas as cidades portuárias. não queria ficar ali. aquele lugar é lugar pra marujo e se eu estivesse mais louco poderia me alistar na marinha mercante e entrar num cargueiro para uma viajem a indonésia, quem sabe poderia lavar o convés por alguns meses e mandar uns cartões postais lá para casa dizendo o quanto eu estava sendo produtivo e onde eu me encontrava. mas acontece que não foi isso que aconteceu. caí fora o mais rápido possível. o simpático senhor do carro me deixou no centro e dei um jeito de andar até a estrada o mais rápido possível. não parei naquela cidade. seu mofo me afugentou. voltei pra estrada e andei e pedi carona.
atravessei andando a fronteira entre o paraná e santacatarina. já era cinco da tarde. estava morto de fome.
parei num bar desses que tem em todos os lugares do mundo para comer qualquer coisa gordurosa que estivesse exposta no balcão-aquário. um pastel, uma coxinha, bebi uma pinga de um lugar chamado fransciscoalves. a noite caiu, e eu caí com ela.
antes de dormir, novamente no meio de árvores, nuvens dançaram no céu que antes deus pintou de laranja.

postado por FELIPE DREHER às 00:05
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6.3.04

visite o gueto sorrindo.
você pode encontrar por lá o paraísoperdido.

postado por FELIPE DREHER às 14:00
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ódio. sensação de fraqueza absoluta.
três histórias censuradas pela rede globo.

1. o mosquito veloz - que voava no banheiro. leon sentou na privada. o mosquito sobrevoou suas pernas. leon deferiu um golpe e nada pegou. o mosquito fez um razante no pescoço de leon que não conseguia eliminar seus dejetos. um novo golpe, o mosquito cambaleia. bate em retirada e fica a espreita maquinando um plano de sugar o sangue e atrapalhar a evacuação de leon de dentro do box. tipo o coiote do desenho do papa-léguas, o mosquito traça seus passos na lousa. (leon pensa num "como" pegar aquele inseto desgraçado se ele aparecer enchendo o saco novamente). o mosquito sai de trás do box e vem com tudo. leon esquece o que tinha pensado e evacua insanamente. o mosquito sente uma tonteira. voa em círculos e cai. leon esmaga o mosquito veloz com toda a sutileza de seu pé de gordo, não antes de arrancar as asinhas e as patinhas do mosquito que a partir daquele momento não podia mais ser chamado de veloz e sim de aleijado.

2. dr. jekyll e hide o monstro da ditadura - cáramês, filho de família tradicional, não tinha feito grandes coisas de sua vida além de ler um montão de livros e beber uma porção de líquidos que em sua fórmula continham álcool. na década de sessenta ele entrou para a faculdade de medicina e conheceu muitos carinhas bacanas. dava festas em seu apê que começavam na quarta-feira e iam até segunda. nessa época, cáramês filiou-se ao partido comunista e, se isso não fosse suficiente para acomodar suas idéias, ele entrou para um grupo que praticava algumas "idéias" (nunca ações) terroristas. um de seus "amigos subversivos" foi preso e durante uma quinta-feira de festa em seu apartamento, o dops bateu lá e levou todo mundo - que na ocasião não era muita gente, porque as festas realmente enchiam a partir de sexta/sábado. cáramês, estudante de medicina foi preso. nas catacumbas do dops, generais resolveram testar nele um novo tipo de tortura importado da china. trancaram-no numa sala escura, apertada e fedorenta. amarraram-no numa cadeira. uma goteira fazia seu papel exatamente no centro de sua cabeça. deixaram ele lá, sei lá por quanto tempo. depois de dois anos foi solto. ganhou seu diploma de médico (?) a ditadura chegou ao fim nesse país de terceiro mundo cruelmente influenciado por forças externas e, a única atividade que cáramês, doutor cáramês, consegue desenvolver é o jogo de dominó.

3. pró-ana: depois de uma conversa pensei num jeito nojento de sustentar a anorexia através do consumo do vômito ocasionado pela bulimia. coma merda, depois, com peso na consciência, vomite. coma o vômito.

4. guarde seus melhores argumentos para o final da festa.

5. posts que acabam com perguntas estimulam os comentários?

postado por FELIPE DREHER às 13:27
comente:

1.3.04

: : d ois s ac e rdo te s s s ss : ..:

perdeste toda a crença quando deu de cara com a beleza. uma satisfação automática. teu corpo embalado pela música rápida. pelo automóvel veloz. pela estrada sinuosa. vejo a criação acima das nuvens. criaste frases e impuseste respeito.
vejo que você deitou na grama aquela tarde.
o corpo dele deitou sobre o teu.
vi o beijo. vi o abraço.
ouvi quando vocês juraram:
- pra sempre?
- pra sempre.
nenhuma desculpa esfarrapada foi ouvida depois.
o silêncio selou o pacto. o pacote completo com todas as delícias possíveis. na grama macia e molhada vocês rolaram. morro abaixo, morro acima. mais promessas silênciosas. promessas quebradissas. eu vi quando vocês levantaram e andaram pela estrada de terra e entraram na casa de paredes cinza com a tinta descascada. quando foram até o quarto e ficaram pelados. eu ouvi:
- sim, eu te amo. e tu?
- claro.
tudo pronto. ruído quebrado. eu vi vocês deitados. todas aquelas coisas. a concepção. eu ouvi vocês me chamando de dentro do útero, então eu caí. e nove meses depois nasci. desde então procurei meus fragmentos que se espalharam pela atmosfera enquanto eu caia.
encontrei. jurei. selei o juramento com a verdade.

ontem quando estava deitado ao teu lado, no meio da noite, acordei. nenhum carro passou pela rua. nenhum barulho além da nossa respiração e do fluxo de sangue correndo em nossas veias. e nosso coração brilhando.
quando nada existe, e isso é o meio da madrugada, nem um cão ladrando, nem um ladrão latindo. não dá pra ouvir outro som que não o dos átomos explodindo e se multiplicando.

quando a promessa foi feita a estrela brilho, mas não caiu.
se caíssem, seriamos mais dois sacerdotes.

postado por FELIPE DREHER às 13:49
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vejo um arco-iris p&b num céu de noite grisalha. estou empurrando dois elephantes escada acima. vi a lua espatifar-se no chão e quando ela caiu, cacos de vidro se espalharam por todos os lados e agora meus pés estão sangrando e não consigo e nem quero cuidar das feridas porque até o momento dancei sobre as pontas cristalizadas que semearam a terra.

todas as estrelas cairam e se dividiram na atmosfera.
arremessaram vinho sobre minha cabeça. um anjo desviou o copo - plástico - e alimentou-se do líquido que dele saiu e molhou minhas costas. ele lambeu o vinho espalhado pelo meu corpo. capturou minha alma numa fotografia.

o céu é engraçado. roubaram suas estrelas. um demônio de pés leves que te esmaga com carícias. sintonizado, meditando, hipnótico. olhos gelados de retina colada se desfazendo sem nenhum sorriso. nada ficou. não tenho nem vontade de acender a luz. não existe mais luz. nascimento/morte. sem vida. útero assassino. palavras cortantes.

segundo o tabelião, hoje é meu aniversário.

postado por FELIPE DREHER às 13:37
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